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A mostrar mensagens de janeiro, 2026

A casa que caiu dentro de mim

O coração partido não se explica com palavras bonitas porque ele não tem beleza. Ele tem peso. É o peso de uma casa inteira que desabou sobre o teu peito enquanto tu ainda estavas lá dentro, a dormir, a sonhar com a permanência, com a ilusão infantil de que algumas coisas não acabam. Não houve aviso sísmico, não houve tempo para fugir. Apenas o estrondo. E depois, o silêncio esmagado pelos escombros. Tu acordas e a primeira coisa que sentes é o embate. Não é tristeza, ainda não. É físico. É uma náusea que nasce no centro do abdómen e sobe lentamente até à garganta, como um veneno paciente. É um nó que não se desata nem com choro nem com gritos. O corpo entra em modo de sobrevivência, mas não sabe exatamente de quê. O ar parece mais espesso, quase hostil, como se o oxigénio tivesse decidido que já não te pertence. Tu tentas encher os pulmões, mas o ar tropeça nos destroços do que tu achavas que era a tua vida. Respirar torna-se um ato consciente, trabalhoso, indigno de algo que antes e...

Enquanto eu ainda estava aqui

Ela acordava sempre antes de todos. Mesmo quando o corpo já não obedecia, levantava-se. Não por disciplina, mas por hábito de cuidar. O café ficava fraco, as mãos tremiam, mas a mesa estava posta quando ele entrava na cozinha. Chamava-lhe “menino”. Sempre. Mesmo depois dos quarenta. Ele corrigia-a às vezes. Já não sou um menino, mãe. Ela sorria. Não respondia. Continuava a mexer o café. Nunca foi uma mulher de abraços longos nem de grandes discursos. Amava como quem sustenta uma casa sem que o telhado caia. Pagava contas. Fazia sopa. Esperava acordada. O amor dela não se dizia. Mantinha-se. Quando ele era criança e tinha medo do escuro, ela sentava-se no chão ao lado da cama até o sono chegar. Quando era adolescente e chegava tarde, ela fingia dormir. Quando era adulto e se afastou, ela continuou a pôr um prato a mais na mesa. Durante anos. A doença chegou sem aviso, como chegam as coisas que não pedem licença. Primeiro o esquecimento pequeno. Depois o nome trocado. Depois o silêncio. ...