Enquanto eu ainda estava aqui
Ela acordava sempre antes de todos. Mesmo quando o corpo já não obedecia, levantava-se. Não por disciplina, mas por hábito de cuidar. O café ficava fraco, as mãos tremiam, mas a mesa estava posta quando ele entrava na cozinha. Chamava-lhe “menino”. Sempre. Mesmo depois dos quarenta. Ele corrigia-a às vezes. Já não sou um menino, mãe. Ela sorria. Não respondia. Continuava a mexer o café. Nunca foi uma mulher de abraços longos nem de grandes discursos. Amava como quem sustenta uma casa sem que o telhado caia. Pagava contas. Fazia sopa. Esperava acordada. O amor dela não se dizia. Mantinha-se. Quando ele era criança e tinha medo do escuro, ela sentava-se no chão ao lado da cama até o sono chegar. Quando era adolescente e chegava tarde, ela fingia dormir. Quando era adulto e se afastou, ela continuou a pôr um prato a mais na mesa. Durante anos. A doença chegou sem aviso, como chegam as coisas que não pedem licença. Primeiro o esquecimento pequeno. Depois o nome trocado. Depois o silêncio. ...