A casa que caiu dentro de mim

O coração partido não se explica com palavras bonitas porque ele não tem beleza. Ele tem peso. É o peso de uma casa inteira que desabou sobre o teu peito enquanto tu ainda estavas lá dentro, a dormir, a sonhar com a permanência, com a ilusão infantil de que algumas coisas não acabam. Não houve aviso sísmico, não houve tempo para fugir. Apenas o estrondo. E depois, o silêncio esmagado pelos escombros.

Tu acordas e a primeira coisa que sentes é o embate. Não é tristeza, ainda não. É físico. É uma náusea que nasce no centro do abdómen e sobe lentamente até à garganta, como um veneno paciente. É um nó que não se desata nem com choro nem com gritos. O corpo entra em modo de sobrevivência, mas não sabe exatamente de quê. O ar parece mais espesso, quase hostil, como se o oxigénio tivesse decidido que já não te pertence. Tu tentas encher os pulmões, mas o ar tropeça nos destroços do que tu achavas que era a tua vida. Respirar torna-se um ato consciente, trabalhoso, indigno de algo que antes era automático.

Os dias deixam de ter contornos claros. Manhã, tarde, noite, tudo se mistura numa massa cinzenta onde o tempo perdeu a sua função original. Comer é um hábito esquecido. Dormir é um campo de batalha. Quando finalmente adormeces, o corpo trai-te e acorda-te a meio da noite, como se dissesse: “Não te esqueças. Isto ainda está aqui.” E está. Sempre está.

Há uma solidão violenta em ver o mundo continuar. Tu olhas pela janela e vês pessoas a comprar pão, vês o semáforo a mudar de cor, vês a chuva a molhar o asfalto, indiferente, e queres gritar para que tudo pare. Como é que o universo tem a audácia de continuar o seu movimento quando o teu eixo se partiu? Tu és um satélite que perdeu o planeta e agora flutuas num espaço negro e gelado, onde o tempo não passa, ele apenas se arrasta, raspando em ti, deixando marcas.

A memória torna-se uma tortura detalhada, quase sádica. Não são apenas os grandes momentos. São os detalhes microscópicos. O ângulo exato de um olhar. O modo como a luz batia naquela pele numa tarde específica. O som de uma chave a rodar na porta. O lugar exato onde as mãos se encontravam no sofá. Cada lembrança é uma lâmina bem afiada que corta o que resta da tua paz. O amor que tinhas, que era abrigo, tornou-se uma arma que o teu próprio cérebro usa contra ti, especialmente às quatro da manhã, quando o silêncio é tão alto que chega a doer nos ouvidos.

Ter o coração partido é viver num exílio dentro do próprio corpo. Tu caminhas, falas, respondes a emails, trabalhas, ris quando é socialmente esperado. Mas és um fantasma a ocupar a tua própria pele. A tua alma ficou noutro lugar. Está lá atrás, colada a um momento que já morreu, a tentar reanimar um cadáver que não tem pulso. É a tentativa desesperada de colar cacos de vidro com as próprias mãos, cortando os dedos no processo, apenas para perceber, tarde demais, que a forma original se perdeu para sempre.

E isso dói de uma forma diferente. Dói perceber que não é só a pessoa que perdeste, é a versão de ti que existia com ela. Os planos, as frases no futuro, as certezas pequenas e silenciosas. Tudo isso morreu também. E ninguém faz um luto formal por essas coisas. O mundo não reconhece essa perda, mas tu sentes cada ausência como se fosse uma amputação invisível.

Mas algures, num ponto indistinto entre o cansaço extremo e o vazio absoluto, há uma verdade crua, quase ofensiva na sua simplicidade. Tu estás a sentir isto porque estiveste vivo. Estás a sangrar porque não foste um espectador da tua própria existência. A dor é o recibo da entrega. É a prova de que amaste sem redes, sem garantias, sem cobardias.

E embora agora pareça impossível imaginar luz, embora tudo em ti jure que isto nunca mais vai passar, há algo que resiste. Algo cansado, ferido, mas teimosamente vivo. O facto de estares aqui, a carregar esse peso todos os dias, mostra que o teu coração, mesmo partido, mesmo rachado, mesmo exausto, continua a bater. E um coração que bate depois de tudo isto não é fraco. É a coisa mais forte que tu tens.

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