Enquanto eu ainda estava aqui
Ela acordava sempre antes de todos. Mesmo quando o corpo já não obedecia, levantava-se. Não por disciplina, mas por hábito de cuidar. O café ficava fraco, as mãos tremiam, mas a mesa estava posta quando ele entrava na cozinha.
Chamava-lhe “menino”. Sempre. Mesmo depois dos quarenta.
Ele corrigia-a às vezes. Já não sou um menino, mãe.
Ela sorria. Não respondia. Continuava a mexer o café.
Nunca foi uma mulher de abraços longos nem de grandes discursos. Amava como quem sustenta uma casa sem que o telhado caia. Pagava contas. Fazia sopa. Esperava acordada. O amor dela não se dizia. Mantinha-se.
Quando ele era criança e tinha medo do escuro, ela sentava-se no chão ao lado da cama até o sono chegar. Quando era adolescente e chegava tarde, ela fingia dormir. Quando era adulto e se afastou, ela continuou a pôr um prato a mais na mesa. Durante anos.
A doença chegou sem aviso, como chegam as coisas que não pedem licença. Primeiro o esquecimento pequeno. Depois o nome trocado. Depois o silêncio. Ele passou a visitá-la mais, mas sempre com pressa. Sempre com o telefone na mão. Sempre a achar que havia tempo.
Ela olhava-o como quem reconhece alguém à distância. Às vezes chamava-lhe pelo nome certo. Outras vezes não. Mas sempre lhe tocava na mão. Como se a pele fosse a última memória que ainda lhe obedecia.
Num desses dias, ele perdeu a paciência. Falou alto. Corrigiu-a. Disse que já lhe tinha explicado. Disse que estava cansado. Disse coisas que não eram cruéis, mas eram apressadas. Ela encolheu-se ligeiramente. Não respondeu. Pediu apenas desculpa.
Essa noite, ela não comeu.
Na manhã seguinte, encontraram-na sentada na cama, direita, vestida, com o casaco posto. Como se estivesse à espera. Na mesa de cabeceira havia um envelope.
A letra era irregular, mas reconhecível.
Filho,
se estiveres a ler isto, é porque já não consegui esperar mais.
Quero que saibas que nunca fiquei triste contigo.
Nem quando não vinhas.
Nem quando estavas distante.
Nem quando te esquecias de ligar.
Eu sabia que estavas a viver.
E isso sempre foi mais importante do que estares aqui.
Se alguma vez sentiste que falhaste comigo, não sentiste bem.
Eu nunca precisei que fosses perfeito.
Precisei apenas que fosses meu.
E foste. Sempre.
Não guardes culpa.
Guarda só isto. Alguém te amou mais do que soube dizer.
A mãe.
Ele sentou-se no chão com a carta nas mãos. Não chorou de imediato. O choro veio depois. Veio quando percebeu que nunca mais alguém iria esperar por ele daquela forma. Que nunca mais ninguém iria amá-lo sem precisar de nada em troca. Que aquele tipo de amor não volta. Só acontece uma vez.
Hoje, quando passa pela antiga casa, ainda olha para a janela da cozinha. Por instinto. Como se alguém pudesse estar lá dentro, a fingir que dorme, só para não o fazer sentir-se em dívida.
E é aí que dói.
Porque o amor incondicional não grita quando falta.
Ensina em silêncio.
E só percebemos o tamanho dele quando já não estamos a tempo de voltar atrás.
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