A casa que caiu dentro de mim
O coração partido não se explica com palavras bonitas porque ele não tem beleza. Ele tem peso. É o peso de uma casa inteira que desabou sobre o teu peito enquanto tu ainda estavas lá dentro, a dormir, a sonhar com a permanência, com a ilusão infantil de que algumas coisas não acabam. Não houve aviso sísmico, não houve tempo para fugir. Apenas o estrondo. E depois, o silêncio esmagado pelos escombros. Tu acordas e a primeira coisa que sentes é o embate. Não é tristeza, ainda não. É físico. É uma náusea que nasce no centro do abdómen e sobe lentamente até à garganta, como um veneno paciente. É um nó que não se desata nem com choro nem com gritos. O corpo entra em modo de sobrevivência, mas não sabe exatamente de quê. O ar parece mais espesso, quase hostil, como se o oxigénio tivesse decidido que já não te pertence. Tu tentas encher os pulmões, mas o ar tropeça nos destroços do que tu achavas que era a tua vida. Respirar torna-se um ato consciente, trabalhoso, indigno de algo que antes e...